ADA LOVELACE
- despadronizeiteen

- 21 de jul. de 2020
- 6 min de leitura
A PRIMEIRA PROGRAMADORA, A ENCANTADORA DE NÚMEROS, A “FUNÇÃO EXPLÍCITA DE X”

Ada Lovelace é, provavelmente, uma das mulheres mais reconhecidas pelas suas contribuições à ciência, tendo até mesmo um dia dedicado a ela: a segunda terça-feira de outubro. Mas quem é ela?
Augusta Ada Byron nasceu em Londres, em 10/12/1815. Achou o sobrenome familiar? Sim, ela é filha do famigerado poeta Lord Byron e de sua então esposa, Annabella Milbanke (que por acaso era uma exímia matemática). Byron não era conhecido por sua fidelidade e, na verdade, os pais de Ada eram literalmente opostos... mas não de um jeito agradável. A mãe dela levava uma vida regrada e religiosa, enquanto, como disse Stephen Wolfram, “Byron [...] era o maior ‘bad boy’ do século XIX”, então era de se esperar que o casamento não durasse muito.
Logo após o nascimento da filha, o casal se separou, e não de uma maneira amigável. Annabella tentou ao máximo distanciar Ada do fantasma poético do seu pai, tentando extinguir até a criatividade da garota e tentando dar a ela uma educação mais tradicional. Ada estudou de tudo: diferentes línguas, astronomia, matemática, física, música, costura, geografia, literatura, história, taquigrafia e química, contudo também era obrigada a ficar horas parada, sem fazer nada, para disciplinar a sua imaginação (ou dizimá-la).
Os incríveis esforços de Annabella não surtiram o efeito esperado. Desde pequena, Ada se mostrou apaixonada pela poesia e uma grande admiradora de seu pai, que ela nunca viria a conhecer pessoalmente. Uma frase muito famosa de Ada à sua mãe é “Se não pode me dar poesia, poderia me dar ciência poética?”, o que eu, particularmente, acho genial.
Como Ada sempre procurou extravasar sua criatividade nas pequenas coisas às quais era permitida, precisou focar seus esforços na observação e, assim, se tornou fascinada por pássaros. E quando ela ficava fascinada por algo, bom, não tinha o que tirasse esse algo da sua cabeça! Ela se encantou com o modo como os pássaros são capazes de voar tão graciosamente e decidiu fazer uma máquina voadora... mais precisamente um cavalo alado de metal. E como com ela nada é brincadeira, rapidinho a nossa garota começou a unir materiais e ferramentas para montar sua invenção, que ela não pôde concluir devido a problemas de saúde.

Como já deu para perceber, ela era a junção perfeita (e que deu certo) da mãe e do pai. Conseguia unir de forma única sua criatividade, conhecimentos e aptidão matemáticos e ainda poesia, de um jeito que nem nosso método educacional consegue fazer! Quando ela se tornou uma jovem adulta, passado seus 17 anos, ela estava prestes a conhecer seu mais novo motivo de obsessão.
Essa é a idade em que as damas precisavam ser apresentadas à sociedade e com Ada não foi diferente, só que os principais encontros que ela participava, junto de sua mãe, eram os do famoso inventor Charles Babbage, que em um deles apresentou a seus convidados um protótipo de sua mais nova invenção: a Máquina Analítica, uma grande máquina que fazia contas por meio de vários esquemas complexos. Digamos que foi amor à primeira vista.
Mais ou menos na mesma época ela saiu em viagem pela Europa com a mãe e, sendo as duas cientistas, era de se esperar que o alvo de suas curiosidades fossem principalmente equipamentos tecnológicos (e como estamos falando de um contexto de Revolução Industrial... bom, tinham muitos inventos) e um dos mais incríveis na opinião da Lady Ada – e na minha também – era o Tear de Jacquard. O Jacquard era um tecido que estava em alta no período vitoriano, e foi uma das primeiras invenções programáveis, que usava placas de madeira furadas para determinar como seria o padrão que o tecido teria (e se você já estudou programação, então também deve ter ouvido falar sobre isso).

Em 1835, ela conheceu seu futuro esposo, William King, um conhecido de sua amiga, Mary Sommerville. Na época ela tinha 19 anos e ele 30... mas gente, vamos lembrar que isso era normal no século XIX, tá? Enfim, continuando... eles têm três filhos: Ralph, Byron e Anne Isabel. Além disso, se você estava até agora tentando entender de onde veio o “Lovelace”, aí vai a resposta: William era conde de Lovelace, o que fazia de Ada a condessa de Lovelace.
Mas ela nunca parou de estudar e agora, motivada pela Máquina Diferencial (já construída) e pela Máquina Analítica, buscou um tutor em Londres e começou a fazer aulas com um amigo de Babbage, Augustus de Morgan. Só que aí aconteceu uma coisa louca: Lord Byron estava para ter um filho com a própria meia-irmã, o que era um escândalo. Ada tinha uma admiração enorme pelo pai, então isso mexeu muito com ela, que deu uma pausa nos estudos. Para ajudar, na mesma época, a saúde dela que já não era das melhores, só piorou.
Enquanto isso, Babbage procurava financiamento para sua Máquina Analítica e acabou chegando na Itália, onde surgiu um interessado: o engenheiro Luigi Menabrea, que fez diversas notas sobre a invenção de Babbage e publicou. Mais tarde, Charles viriam a convidar Ada para traduzir as notas de Menabrea e deu carta branca para que ela adicionasse suas próprias observações.
Apesar de estar em más condições de saúde, Ada continuou a estudar, trabalhar na tradução das notas de Menabrea, enquanto era medicada com ópio e láudano, que eram remédios muito fortes e causavam mudanças de humor, alucinações e um pouco da própria personalidade de Ada acabou mudando por conta disso...
Mas, enfim, agora chega a melhor parte! A parte em que ela, maravilhosamente, publica sua tradução, em 1843. Somando a tradução com as suas riquíssimas anotações, o novo documento ficou com quase o triplo de tamanho do original. Em suas anotações ela usou e abusou da ciência poética, enquanto os matemáticos e engenheiros da época só pensavam em números e praticidade, ela percebeu que a máquina tinha potencial para mais: imagens, desenhos, música (basicamente o que a inteligência artificial faz hoje, então sim, ela foi a primeira a pensar nisso). Uma das imagens mais conhecidas da tradução de Ada é a tabela em que ela exprime um método para que a Máquina Analítica compute os números de Bernoulli.

Se você ainda não está convencido do quanto ela é genial, saiba que essas notas dela são, além de tudo, o primeiro algoritmo escrito. SIM! ELA INVENTOU OS ALGORITMOS!!
Voltando para a vida dela, por um tempo foi tudo incrível. Ada estava super empolgada com as notas que tinha feito e conseguia ver seu futuro como brilhante cientista! Sua amizade com Charles Babbage também ficou mais consistente. Eles trocavam cartas com frequência (e as cartas tinham expressões incríveis, como quando ela disse para ele que “sou uma explícita função de x” ou quando ele passa a chama-la de “Encantadora de Números”, título que usam até hoje). Mas a saúde dela começou a piorar.
Misturando o intenso uso de láudano e ópio com a vontade que ela tinha de finalmente financiar a “Máquina Analítica”, ela começou a apostar, baseado em sistemas matemáticos que prometeriam fazer com que ela ganhasse, só que isso não aconteceu. Ela se viu endividada e logo descobriram também que ela tinha câncer, provavelmente uterino.
Ela morreu jovem, com 36 anos e, acredito eu, decepcionada. Ela tinha tantos planos para seu futuro na ciência... achava que a tradução ia ser só sua porta de entrada... bom, eu queria que tivesse um jeito de poder contar para ela que na verdade a tradução dela mudou o mundo. Sim, mudou!
Ela foi enterrada ao lado do corpo do pai, a pedido dela mesma e por muito tempo não se ouviu falar mais no seu nome. Babbage tampouco conseguiu terminar sua máquina enquanto esteve vivo. Mas aí chega Alan Turing - para quem não sabe, ele fez o primeiro computador, que tinha como objetivo decifrar a “Enigma”, uma máquina que decodificava as mensagens alemãs durante a segunda guerra. Enquanto fazia suas pesquisas, Turing redescobriu Ada e percebeu que o que ele precisava fazer era muito parecido com o que ela tinha pensado anos atrás. Bom, nós sabemos que Turing conseguiu, logo acho que podemos dizer que Ada ajudou os Aliados a vencerem os nazistas.
Se agora você também está sentindo que sua cabeça acabou de explodir e quer que o mundo saiba sobre ela, relaxa que você não está sozinho. No mundo da programação, uma das mais importantes linguagens de programação é ADA, que é usada em aeroportos, por exemplos. Nas artes podemos ver, além de diversos livros sobre ela, ou dedicados a ela, um musical chamado “Ada’s Algorithm” (veja mais sobre ele na bibliografia). E por fim, para comemorar e inspirar todas as mulheres cientistas, em especial as da área de exatas, todos os anos, na segunda terça-feira de outubro, é comemorado o Dia de Ada Lovelace!
Escrito por: Olívia Amann.
BIBLIOGRAFIA:
Ada’s Algorithm – The Ada Lovelace Musical: https://www.theadalovelacemusical.com/
Canal Maker. Ada Lovelace: a mãe do software | Fazedoras. (4m50s). Disponível em: https://youtu.be/C4aY7FBg7UU. Acesso em: 21/07/2020.
Portal Conquer Maths. Why the Life Story of Ada Lovelace Needs To Be Made Into a Film. Publicado em: 28/10/2014. Disponível em: https://www.conquermaths.com/news/post/index/173/Why-The-Life-Story-of-Ada-Lovelace-Needs-To-Be-Made-Into-A-Film. Acesso em: 21/07/2020.
WHISTLER, Simon. Ada Lovelace: The First Computer Programmer (Ada Lovelace Biography). (20m35s). Disponível em: https://youtu.be/IZptxisyVqQ.Acesso em: 21/07/2020.
WOLFRAM, Stephen. Untangling the Tale of Ada Lovelace. Publicado em: 22/12/2015. Disponível em: https://www.wired.com/2015/12/untangling-the-tale-of-ada-lovelace/. Acesso em: 21/07/2020.





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