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GABRIELA MISTRAL

  • Foto do escritor: despadronizeiteen
    despadronizeiteen
  • 25 de ago. de 2020
  • 6 min de leitura

A Missionária Lírica

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Em 07 de abril de 1889 nascia, em Vicuña, no norte do Chile, Lucila de Maria del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga. Filha do professor e poeta Juan Jerónimo Godoy Villanueva e de Petronilla Alcayaga Rojas, ela vinha de uma família pobre e rural, além de ser mestiça de espanhol e índio, o que certamente fez com que sofresse discriminação.


Quando tinha 3 anos, o pai abandonou a família (apesar disso, já adulta, revelou que um poema de seu pai, escrito para ela, foi uma das motivações para que se tornasse escritora). Ainda nova, ela começou a trabalhar no campo, mas sua irmã apresentou-lhe algo que se tornaria uma de suas mais ardentes paixões: a pedagogia. Com 15 anos, ela começou a trabalhar como professora de uma pequena escola rural, Escuela de la Compañia Baja, e continuou ensinando crianças de ambientes rurais por muito tempo ainda.


Desde então, começou a defender assiduamente o direito e as melhores condições de educação para as crianças e mulheres. Desde 1904, passou a publicar textos em jornais, como “La Voz de Elquí”, onde, inclusive, ela publicou um de seus mais famosos textos, “La Instrucción de la Mujer”, onde ela defende a independência da mulher e que a mesma fosse, como o próprio nome já indica, devidamente instruída.


Em 1907, Lucila está com 18 anos e tem um namorado... bom, infelizmente o relacionamento não dura, já que ele acaba cometendo suicídio por estar extremamente endividado. Devido a essa traumática experiência, Alcayaga escreve poemas para expressar sua dor.


Apesar de já ter publicado alguns textos no jornal, só em 1908 ela publicou algo com o pseudônimo de Gabriela Mistral. Tal pseudônimo surgiu como uma homenagem a dois poetas que ela muito admirava: Gabriele D’Annuzio e Frédéric Mistral. O texto, “Del passado”, foi publicado no jornal “El Coquimbo”.


No entanto, é necessário lembrar que o Chile ainda era um país muito preconceituoso e racista, e também estava polarizado, na época, entre os cristãos conservadores e os liberais. Lucila, no entanto, não se encaixava em nenhum dos dois, já que, apesar de católica, não era nada conservadora, e tampouco liberal. A dificuldade de expor seus pensamentos pode ser evidenciado pelo episódio em que, ao tentar ingressar na Escuela Normal de Preceptoras de la Serena, seu ingresso foi negado devido a alguns de seus textos, que flertavam com o paganismo e o socialismo.


No ano de 1910, Gabriela começou a migrar de cidade em cidade, exercendo sua profissão de educadora enquanto lutava por melhores condições para a educação rural e educação de mulheres. Em uma das viagens, parou em Temuco, onde encontrou Pablo Neruda, um grande nome da literatura e que se tornaria um grande amigo seu a partir de então.


Quando estava com 25 anos, em 1914, Lucila ganhou o primeiro do que viriam ser diversos prêmios e nomeações. Ela teria se inscrito nos Juegos Florales de Santiago, com os “Sonetos de la Muerte” e ganhou a competição em primeiríssimo lugar.


Em busca de mudar a realidade das crianças pobres, em 1922, Mistral se muda para o México, para auxiliar José Vasconcelos na reforma da educação pós-revolução, o que a levou a se encontrar com o Ministro da Educação Mexicano. Foi nessa época que publicou seu primeiro livro de poemas, “Desolación”, já conquistando fama internacional (quem pode, pode, não é mesmo?).


Em 1923 ela publica “Lecturas para Mujeres”, um livro que juntava ideias de diversos pensadores latino-americanos e era direcionado a professoras e alunas. A principal importância de tal livro foi, principalmente, o fato de que os “pensamentos” latino-americanos não eram muito ensinados ou difundidos, tendo-se preferência pelo estrangeiro. Porém, após a publicação desse livro, tal realidade foi bastante mudada.


Pode-se dizer que seu esplendor foi oficialmente reconhecido em 1924, quando, a pedido do governo mexicano, foi para visitar os Estados Unidos da América e a Europa, devido a conferências e palestras. Em 1925 ela é nomeada secretária do Instituto Internacional de Cooperación Intelectual de la Sociedad de Naciones, em Genebra, na Suíça...


Posterior a esse, ela ainda prestou diversos trabalhos diplomáticos, em diferentes países das Américas e da Europa. Na década de 30 ela passou a ser convidada a visitar diversas escolas e universidades ao redor do mundo, principalmente por aqueles que a consideravam uma potencial candidata ao Nobel. Ainda nos anos 30, em 1933, ela foi convidada a ser consulesa do Chile em Madri... o que se sucedeu por diversos outros anos e países: Portugal, Guatemala, França, Brasil, EUA, México e Itália.


Dos países citados anteriormente me aprofundarei apenas em dois. Sobre a Itália é sabido que ela precisou sair às pressas do país após depor publicamente contra o fascismo; enquanto no Brasil, onde ela chegou em 1937, geralmente é lembrado de sua amizade com importantes nomes do modernismo, como Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mário de Andrade etc. Porém sua maior amizade foi, certamente, com Cecília! As duas escreveram um livro juntas (chamado de “Gabriela Mistral e Cecília Meireles”). Inclusive, foi Cecília que, em uma carta a Mário de Andrade, disse que Gabriela Mistral era como uma “missionária lírica”.


Gabriela Mistral e Anders Österling, na cerimônia do Prêmio Nobel de 1945
Gabriela Mistral e Anders Österling, na cerimônia do Nobel de 1945

Morando em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1945, Gabriela Mistral é nomeada ao Prêmio Nobel de Literatura. Ela foi a primeira pessoa em toda a América Latina a ganhar um Nobel de Literatura e segue sendo a única mulher latino-americana a tê-lo recebido. Segundo o site oficial do Prêmio Nobel (adaptado):


“Os poemas de Gabriela Mistral são caracterizados por fortes emoções e linguagens diretas. Eles são igualmente influenciados pelo movimento modernista. Seus temas centrais são amor, engano, tristeza, natureza, viagens, e amor pelas crianças. [...]”

Mistral escrevia sobre o que sentia, sem se esconder atrás de seus escritos. Se ela amava, escrevia sobre amor. Se ela sentia dor, escrevia sobre sua dor. Não à toa, é possível perceber certa melancolia em alguns de seus textos, já que perdeu muitos amigos próximos, como o sobrinho (e quase filho adotivo) para o suicídio.


Porém, apesar de sua idade avançada, uma coisa que se pode afirmar é que receber um Nobel não delimitou o fim de sua vida. Além de ser agraciada com diversos “Honoris causa” de faculdades ao redor do mundo também foi uma das fundadoras da UNICEF. Em 1948, começou a se corresponder com uma jovem tradutora, interessada em traduzir alguma de suas obras para o alemão e, em 1954, ela ainda publicou “Lagar”, seu primeiro livro a ser lançado incialmente no Chile, ao invés de no estrangeiro.


Gabriela batalhava contra um câncer de pâncreas quando morreu, em 10 de janeiro de 1957, em Nova Iorque. Sua única herdeira foi a própria tradutora, Doris Dana, mas antes de morrer, Lucila pediu que os lucros conseguidos com os “direitos de autor” em cima de suas obras fossem revertidos às crianças de Montegrande, no Chile.


Doris Dana faleceu em 2006, deixando todos os seus manuscritos e cartas, bem como os de Mistral, para a sobrinha, Doris Atkinson, que os doou para o governo chileno. Entre as cartas foram possíveis encontrar evidências de que Doris e Gabriela mantinham um relacionamento amoroso... ok, mais do que só “encontrar evidências”, elas com certeza formavam um casal!


Dentre as mais diversas e poéticas declarações de amor já feitas, na minha opinião, as cartas de Doris e Gabriela são algumas das mais bonitas, provando que, por vezes, não há nada mais poético que a vida real. No documentário “Locas Mujeres”, de María Elena Wood, é possível ouvir a narração de algumas das cartas que as duas trocavam, além de poder ouvir gravações originais feitas por elas mesmas, dentro de casa.

Encerro, portanto, com um pequeno trecho das cartas (adaptado):

Mistral: “Tenho para ti, em mim, muitas coisas subterrâneas, que ainda não vês.”
Dana: “Quero conhecer essas coisas subterrâneas e sabes bem que tenho confiança em ti, muitíssima confiança. Te dei a prova de minha confiança.”
Mistral: “O subterrâneo é o que digo. Mas dou-o a ti quando te olho e te toco sem ver-te.”
Dana: “E pensas tú que quando olho para ti e a maneira como toco a ti, há coisas que não se possa dizer ou mostrar? Vivi séculos buscando por ti!”

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Escrito por: Olívia Amann.



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