ANNETTE KELLERMAN
- despadronizeiteen

- 28 de jul. de 2020
- 6 min de leitura
A sereia de um milhão de dólares!

Annette Marie Sarah Kellerman nasceu em 6 de julho de 1886, em Marrickville, Sydney, na Austrália. Apesar de ser filha de músicos (o pai era o violinista Frederick William Kellerman e a mãe era a professora e pianista Francesca Alice Ellen Charbonet) a garota não pôde dançar “ao som da música” constante em sua casa, pois, com apenas 6 anos, descobriram que ela tinha raquitismo (ossos extremamente frágeis). No tratamento, além de usar aparelhos nas pernas, que a ajudavam a andar, os médicos receitaram que ela fizesse natação... mal sabiam eles que estariam criando uma sereia!
Com 13 anos ela estava curada do raquitismo, as pernas em perfeitas condições. Com 16 anos, em 1902, ela já estava competindo e, pasmem, bateu os recordes das 100 Jardas Femininas (em 1min22s) e a Milha de Nova Gales do Sul (em 33min49s). E ela parou por aí? Não. A mãe dela passou a trabalhar em Melbourne, como professora de música, então a família se mudou para lá e ela passou a estudar no Mentone Girl’s Grammar School. Enquanto estudava, seguiu se apresentando em diversos locais e ocasiões diferentes (até nadou com peixinhos em um aquário, mais ou menos como as Sereias do Aquário de São Paulo fazem hoje, mas sem a cauda de sereia).
Quando, em 1905, ela se muda para Londres, devo dizer que já era incrível. Só para você ter uma noção, ela já detinha TODOS os recordes mundiais possíveis para nado feminino. Mas enfim, claro que ela continuou nadando e conquistando mais coisas com isso, sendo a primeira mulher a tentar atravessar o Canal da Mancha (e ela até recebeu patrocínio para isso!). No mesmo ano ela competiu na França em uma corrida de 7 milhas pelo rio Sena, sendo a única mulher na competição e ficando em terceiro lugar.
No ano seguinte ela tentou mais vezes atravessar o Canal, mas na terceira ela percebeu que não conseguiria terminar - ok, ela não conseguiu, mas depois ela venceu uma corrida contra a primeira mulher a terminar a travessia, então acho que ela não é menos incrível por não ter terminado. Além disso ela também afirmou que apesar de ter a força de vontade, não tinha força física par terminar. Ela ainda participou de inúmeras corridas, por diversos rios conhecidos e contra diversas personalidades da época, sempre se destacando e ganhando ainda mais fama.
Quando ela começou a se focar na carreira artística, estrelou shows subaquáticos, se apresentando dentro de um grande tanque cheio de água no Hipódromo de Londres (que é tipo um teatro) e depois começou a estrelar vaudevilles nos EUA (Vaudevilles são teatros de variedades, compostos por apresentações praticamente aleatórias, que podiam ser circos de horrores, apresentações musicais, teatrais etc). Só nessa época ela já estava bem famosinha, ganhando por volta de 1250 dólares por semana.
Só que aí ela decidiu mudar as coisas... e foi presa por isso. Mas calma, no fim ela consegue!
Estamos em 1906 e, naquela época, os trajes de banho femininos eram bem diferentes dos de hoje! Pareciam vestidos, mas também envolviam uma espécie de short ou calção por baixo, uma quase meia-calça e sapatinhos. Admito que eram trajes lindos, mas era quase todo feito de lã, o que somava, quando molhado, cerca de 9 quilos. Parece pouco? Experimentar colocar um roupão (daqueles que absorvem bem a água) e entra de baixo do chuveiro. Eu já fiz isso e, sério, chega a doer as costas.

Imagina nadar com um negócio desses! Mais que desconfortável, era perigoso, o que fazia com que as mulheres evitassem entrar no mar.
Annette decidiu mudar isso na base do choque mesmo e simplesmente foi numa praia, em Boston, e entrou no mar com seu traje de nadadora profissional (os trajes profissionais, ao contrário, eram parecidos com os maiôs de hoje, mas não podiam ser usados em praias públicas). Bom, isso era ilegal, então ela foi presa por atentado ao pudor. Só que (olha só o poder das palavras) durante seu julgamento, ela explicou como a natação era benéfica para homens e mulheres, e que a saúde feminina seria muito beneficiada se os trajes fossem mais apropriados e menos perigosos. Surpreendentemente o juiz concordou com ela! Mas tinha uma condição: o traje deveria cobrir TODA a perna. Então ela foi, costurou o traje e começou o marketing.
O traje da Annette vendeu que nem água! Também, além de ser muito mais confortável, tinha até uma capa com tecido atoalhado, combinando. Foi uma febre! E ela ficou ainda mais famosa, continuando sua carreira em vaudevilles, com balés aquáticos e interpretações teatrais e até se montava de Drag King!
Claro que Hollywood não ia deixar essa estrela de fora do seu catálogo! Em 1909 ela começa a atuar em filmes mudos, que envolviam aventuras subaquáticas e nos quais, por ela não ter dublê, ela fazia coisas bem loucas, como mergulhar a uma profundidade de 28m no mar, ou mesmo 18m em uma piscina cheia de crocodilos!!
No total foram 14 filmes mudos, dentre eles “The Mermaid” (1911), em que ela aparece, pela primeira vez na história cinematográfica, com uma cauda de sereia que ela mesma produziu (ela é quase a mãe do sereismo!). Ah, ela foi pioneira em mais um aspecto muito importante: a primeira cena de nudismo, no filme “A Daughter of the Gods” (1916).

Outro famoso filme foi “Neptune’s Daughter”, que rendeu UM MILHÃO DE DÓLARES, e a partir daí, além de ser conhecida como A Sereia Australiana e Vênus Mergulhadora, seus apelidos desde os vaudevilles, ela passou a ser conhecida também como A Sereia de um Milhão de Dólares (que é também o nome de um filme biográfico feito sobre ela em 1952). E, como se não bastasse, ela ainda foi considerada “A Mulher Perfeita”, o ícone sexual dos anos 10 e um padrão de saúde e beleza.
Não à toa ela era também ícone da saúde, já que começou programas de exercícios para mulheres pelo correio (tipo academia EAD, só que em 1909) e quando ela já não estava mais atuando, por volta de 1924, começou uma loja de comidas saudáveis com o marido (James Sullivan, que por acaso era agente dela na época que se casaram, 1912). A saúde dela era mesmo espetacular, uma vez que entre 1950 e 1960 ela ainda fazia turnês de suas apresentações, já com mais de 60 anos.
Ela escreveu alguns livros também, um que ensinava a nadar (“How to Swim”), um com dicas de saúde e beleza (“Physical Beauty – How to keep it”) e um livro infantil (“Fairy Tales of The South Seas”). Ademais, fez trabalhos de caridade para ajudar a Cruz Vermelha durante a Segunda Guerra.
Ainda em vida, ela foi, merecidamente, homenageada de várias formas, desde receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, até ter nomes de ruas em sua homenagem. Além disso, fizeram um filme sobre ela, que eu inclusive já citei. Até que ela morre, em 5 de novembro de 1975, com 88 anos, já de volta a seu país natal.
Não entendo como, após alcançar tamanho sucesso, Kellerman foi esquecida. Eu particularmente só a descobri por conta do meu incessante interesse no sereismo e sua origem. E ao contrário de tantas outras mulheres, ela obteve muito reconhecimento e tem uma história praticamente inteira feliz e de superação, o que ainda é, infelizmente, considerado anormal. E, apesar do nosso foco com todo esse projeto ser justamente a quebra de padrões, acho que o fato de o padrão já ter sido uma mulher forte, pioneira e com principal interesse na saúde, é algo muito lindo.
Escrito por: Olívia Amann.
BIBLIOGRAFIA
Cena De “Neptune’s Daughter” - https://youtu.be/zKZCIFI8gbk
Balé Subaquático - https://youtu.be/FsO-cOKkeGs
Imagens:
By State Library of New South Wales collection - https://www.flickr.com/photos/29454428@N08/4115677815/, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=36494577
By Fox Film Corp. - Frame or promotional still from 1918 Fox Film Queen of the Sea via www.bikiniscience.com, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4073043
BLACKSHAW, Adam et al. Annette Kellerman – Australian Fearless Mermaid. Disponível em: https://www.nfsa.gov.au/collection/online-exhibition/annette-kellerman-australias-fearless-mermaid. Acesso em: 28/07/2020
Canal Studio 10. Annette Kellerman. (2017). (5m42s). Disponível em: https://youtu.be/Cf53c-T6yuo. Acesso em: 28/07/2020.
Canal Swimming Hall of Fame. Mysteries ate the Museum – Annette Kellerman. (2018). (6m41s). Disponível em: https://youtu.be/G_2akbKQJiY. Acesso em: 28/07/2020.
Portal Wikipédia. Annette Kellerman. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Annette_Kellerman#cite_note-ADB-4. Acesso em: 28/07/2020.
TAYLOR, Beth. From Adversity to Triumph on the World Stage. Disponível em: https://www.nfsa.gov.au/latest/annette-kellerman-biography. Acesso em: 28/07/2020.
WALSH, G.P. Kellerman, Annette Marie (1886 – 1975). Publicado em: 1983. Disponível em: http://adb.anu.edu.au/biography/kellermann-annette-marie-6911. Acesso em: 28/07/2020





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