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MILEVA MARIĆ E.

  • Foto do escritor: despadronizeiteen
    despadronizeiteen
  • 18 de ago. de 2020
  • 9 min de leitura

Física, Recatada e (obrigada a ser) do Lar

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Quantas brilhantes cientistas será que não estão escondidas atrás de homens, também brilhantes, mas controladores? Quantas contribuições femininas não foram apagadas da história?


Provavelmente, mais do que jamais imaginamos, porém, temos a sorte de que pelo menos algumas das incríveis mulheres da história tiveram suas conquistas recuperadas. Este é o caso da personalidade de hoje: Mileva Maric.


Ela nasceu em 19/12/1875, em Titel, na Sérvia, em uma família rica e influente, afinal seu pai tinha sido oficial do Governo. Ela, porém, nasceu com uma condição médica que tornaria muito difícil a “tarefa” de conseguir um marido: era coxa (ou manca). Se você, fica indignada e não consegue perceber o motivo para isso, lembre-se daquele trecho de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que Brás expressa os pensamentos da grande maioria homens da época, acerca de mulheres consideradas fora do padrão, na seguinte linha:


“Por que bela, se coxa, por que coxa, se bela?”

Assim, como Eugênia (no livro de Machado de Assis), Mileva tinha tal condição. Assim como Brás, a maioria a rejeitava.


Mas isso não significa que a vida dela ia ser perdida, não! Os pais de Mileva se importavam mais com sua vida acadêmica, incentivando-a estudar para lapidar o potencial que ela já demonstrava ter desde pequena.


Sua educação teve princípio em Novi Sad, em 1886 (era uma escola só para garotas, algo comum na época), só que um ano mais tarde ela já teria trocado de escola e ido para Sremka Mitrovica, uma escola mais exigente que a anterior. Seguiu por mais diversas instituições, com notas sempre altíssimas, especialmente em matemática.


Em 1891, a influência de seu pai, aliada a sua inteligência, foram responsáveis por sua entrada no Royal Classical High School, uma escola só pra garotos. A partir daí, todas as escolas e universidades que ela frequentaria seriam assim: o pai consegue para ela a possibilidade de participar do processo seletivo e ela passa. 5 anos mais tarde, ela entra na Universidade de Zurique, para estudar medicina... mas por que medicina se ela gosta mesmo é de matemática? Ela deve ter se perguntado o mesmo, então, com ajuda da influência de seu pai, novamente, lhe foi concedida uma permissão especial, para estudar matemática e física no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ).


Ela era a quinta mulher a estudar o curso no ETHZ e a única mulher na sala, acompanhada de outros 5 alunos. Mileva era considerada uma aluna exemplar, sempre se esforçando ao máximo, já que tinha que compensar ser mulher, coxa e sérvia. Sim, sua origem também era um problema.


Outro problema era o antissemitismo. Não, Mileva não era judia, mas seu colega de sala era: Albert. Ele não se encaixava naquele padrão de aluno certinho, era considerado desleixado e preguiçoso, apesar de sua mente brilhante. Ela começou a ajuda-lo com algumas partes da matéria de matemática... não que ele fosse ruim, é só que ela era melhor.

Mais romântico que comédia adolescente da Netflix, os dois se apaixonaram. Ela tinha 21 anos e ele 17, na época, e suas cartas misturavam cálculos, paixão, teorias e hipóteses físicas. Um amor de cientistas. E tudo ia bem, se não fosse pela família de Albert, que sem dúvida não apoiava aquele romance. Para o desespero dos familiares, Albert e Mileva noivaram em 1899.


Faltava pouco para que os pombinhos se formassem juntos... exames finais, doutorado talvez, e um professor da Universidade, Weber, tinha aceitado orientar Mileva. Ela, contudo, exigiu que Albert também fosse orientando de Weber e assim foi feito. Por volta de 1900 ou 1901 eram as datas dos exames finais, mas ela não conseguiu passar, ou seja, não conseguiria se formar. Algumas pessoas podem usar isso como uma justificativa para dizer que Mileva não era tão inteligente quanto outros alegam, mas eu acho que tinha mais nessa história, já que pouco tempo depois ela deu à luz uma menininha. Acredito que a gravidez inesperada tenha influenciado no resultado desses testes, e por quê?


Bom, imagina só a pressão que não deveria ser naquela época, para uma “garota de família” engravidar antes do casamento e, além de tudo, enquanto precisa passar nas provas finais. Se, de acordo com o G1, em 2013 tinham 309 mil mães adolescentes que saíram da escola por conta da gravidez (isso só no Brasil), quem dirá lá em 1902, em que andar na praia de maiô era considerado crime.


Bom, Mileva foi para Novi Sad, para o parto da pequena garotinha, que se chamaria Liersel, mas sobre ela ninguém sabe nada com certeza... alguns dizem que ela teria sido adotada, talvez até por uma amiga próxima da Mileva, Helene, mas outros indícios apontam para a possibilidade da bebezinha ter morrido de escarlatina.


Já nessa época é sabido que Mileva e Albert faziam alguns artigos juntos. Algumas cartas dele estão conservadas até hoje e nelas você pode ver que ele se referia a “nossas” e “nossos” em tudo que estava relacionado a cálculos, teorias e estudos. E, bom, em 1903 eles se casam oficialmente.


Se você é uma pessoa bem perceptiva, deve ter reparado em algumas coisinhas, mas se ainda não, eu vou te ajudar a ligar os pontos rapidinho: Albert, Física, ETHZ... ainda não? Bom, dica final: a primeira letra do sobrenome de Albert é E.


Sim! Mileva foi a primeira esposa de Albert Einstein! Eles se casaram apenas da presença de amigos e eram um casal simples, mas feliz. Passaram por alguns problemas no começo do relacionamento, devido ao antissemitismo que crescia na Europa, contudo, no geral, tudo estava dando certo, eram um casal de cientista, afinal de contas.


Bom, estava dando certo até Maric-Einstein não conseguir mais acompanhar Albert integralmente. Cuidar da casa, da beleza, do marido, do casamento e ainda se manter atualizada sobre os pop-stars da física não era um trabalho nada fácil, ainda mais quando o dia só tem 24 horas e a internet ainda não existia. Ela começa a ficar deprimida. Um futuro só como mais uma bela esposa não era exatamente o que ela tinha planejado para si mesma.


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Mileva e Albert

Hans Albert Einstein nasce em 1904 e as coisas começam a dar uma melhorada! O casal morava em Berna desde que se casaram e lá, em sua casa, Mileva começou a alternar, com um pouco mais de felicidade, seu trabalho como mãe, dona de casa e física, mas apesar do capítulo feliz na história, temos uma controvérsia aqui: teria ela ajudado Albert a desenvolver sua aclamada Teoria da Relatividade e outros projetos?


Muitos dizem que sim, mas tantos outros dizem que não. Eu? Eu acho que sim, meu povo, e vou falar o motivo: antes de tudo isso, lá no Instituto Politécnico de Zurique/ETHZ, Mileva o ajudava nas contas... quanto a teoria, não sei se foi totalmente mérito dele, ou se ela ajudou também, mas na questão de cálculos, acho que certamente ela esteve envolvida. Querem mais uma provinha? Tá bem, eu dou: em 1905, as primeiras ideias da Teoria da Relatividade foram publicadas, e Mileva Maric-Einstein aparecia como coautora.


Infelizmente, depois dessa primeira publicação o nome dela começou a ser apagado... da história num geral. Hoje, quando se fala em Teoria da Relatividade, nunca se lembra de Maric... mas eu me recuso! Sempre que vou escrever sobre isso eu coloco como autores: Mileva Maric e Albert Einstein.


Em 1910, o casal teve mais um filho, Eduard, só que a relação deles já não estava mais as mil maravilhas... Albert não se sentia mais atraído por Mileva e ela não via mais possibilidade de serem um casal científico feliz, como eram Marie e Pierre Curie, e ela seria só a desinteressante responsável por limpar, cozinhar e cuidar dos filhos.


Quando o Sr. Einstein já estava bem distante da Sra. Einstein, em 1912, ele voltou a se corresponder com uma prima de primeiro grau, com quem há muito não falava. Mileva não gostou nada disso e ele não gostou dela não ter gostado. A prima era Elsa Einstein... que viria a ser amante do físico num futuro próximo.


Em 1913, eles se mudam para Berlim, onde Albert começaria a trabalhar e mais ou menos nessa época chega a assombrosa carta que Albert fez para Mileva. Carta não, contrato. Pesquisando um pouco na internet você pode encontrar trechos da carta original, inclusive traduzidos para o português. Aqui vou colocar o pequeno parágrafo do livro “Senhora Einstein”, de Marie Benedict:


“[...] O acordo é numerado as tarefas domésticas que eu deveria executar para Albert; lavar as roupas dele, preparar as refeições — que deveriam ser servidas no quarto dele —, cuidar das roupas de cama e do escritório dele, e quanto a essa tarefa, havia uma ressalva: sem nunca tocar na escrivaninha. Mais inacreditável ainda era a lista de exigências que eu deveria obedecer para me relacionar pessoalmente com ele. No contrato, Albert exigia que eu renunciasse a todo tipo de interação com ele em casa; era ele que determinaria onde e quando deveria falar e que tipos de declarações eu poderia fazer a ele na frente das crianças. E, de modo particular, ele ordenava que renunciasse a todo tipo de intimidade física com ele. Em suma, o documento me transformaria de fato num objeto de Albert. [...]”.

O livro citado acima é um romance ficcional biográfico e histórico, que tenta recriar, do ponto de vista de Mileva, os acontecimentos de sua vida. Claro, que ele não pode ser usado como uma comprovação científica ou histórica, afinal, tem uma certa liberdade dramática para a criação da narrativa, mas o conteúdo do contrato é basicamente o mesmo que descrito por Benedict em seu livro.


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Busto de Mileva Marić

Em 1914, eles se divorciam e Einstein casa-se com Elsa. Um tempo antes do divórcio oficial, ela teve tuberculose cerebral, então Albert adiou a separação até que ela estivesse saudável e bem.


Mileva agora tem que se virar, como seus pais já esperavam que fosse acontecer. Contudo, ela não tem o diploma de física e matemática. Para sustentar os dois filhos, sem receber pensão do ex-marido (só o que tinha era a promessa de que, se ele ganhasse o Nobel, o dinheiro do prêmio seria dela), Mileva precisou dar aulas particulares de música e matemática, entretanto nem sempre isso é suficiente para sustentar a família.


Albert não esqueceu os filhos, é claro. O que sabemos daí pra frente é que ele queimou as cartas de Mileva, mas que quando ganhou o Nobel realmente deu o dinheiro pra ela. Ele costumava perguntar da sua ex-esposa e dos filhos para amigos que moravam em Zurique, onde Hans, Eduard e Mileva foram morar depois da separação.


Mileva passou grande parte de sua vida deprimida devido a essa triste história, mas ainda não acabou: Hans, o mais velho dos dois filhos, virou engenheiro hidráulico, enquanto Eduard foi estudar medicina... só que, em 1930, ele foi diagnosticado com esquizofrenia. Logo ele, que queria ser psiquiatra.


Ela passou o resto da vida cuidando de Eduard e parte do dinheiro do Nobel (que tinha sido investido em residências) foi usado no tratamento. Na verdade, ela tinha comprado 3 casas, das quais duas ela vendeu e ficou morando na terceira. Eduard foi internado em um hospital psiquiátrico, onde permaneceu até sua morte.


Em 4 de agosto de 1948, Mileva Maric morreu, aos 72 anos, na mesma cidade em que morava, Zurique, na Suíça.


Sua importância foi descoberta quando, um dia, encontraram uma caixa de cartas que ela guardava. Cartas que Albert tinha escrito para ela. Não se sabe direito quem encontrou, há quem diga que foi um de seus filhos, mas parte das cartas também foram doadas pela filha de Elsa. Só quando essas cartas vieram a público a história de Mileva pôde ser contada, como mais do que só a “alguma coisa Einstein”, e a partir daí as discussões sobre sua possível contribuição para com os trabalhos de Albert Einstein começaram.


Temos muitas opiniões divididas nesse âmbito! Alguns defendem que ela pode ter criado toda a teoria e Albert tenha assinado, para que o trabalho tivesse reconhecimento (como no livro “Senhora Einstein”, de M. Benedict); já o professor C. A. dos Santos, da UFRGS, acredita que ela tenha sido sim muito inteligente, mas não tenha sido um gênio, como muitos defendem. Eu acho que os dois se ajudavam bastante, de fato, e muitas vezes o nome dela ficava esquecido, assim como aconteceu em 1902, quando eles fizeram um artigo sobre capilaridade, mas só ele assinou, para que não “perdesse credibilidade” na comunidade científica.


No final das contas, acho que o importante mesmo é que todos saibam quem ela é, só que antes do fim permitam-me propor uma reflexão intertextual. Tente lembrar das outras mulheres cujas histórias já foram contadas aqui... quantas delas tiveram finais felizes? O reconhecimento já é um passo gigante, mas de nada adianta para uma pessoa ser reconhecida após a morte, enquanto que, em vida, tudo que sentiu e recebeu foi dor.


Escrito por: Olívia Amann.



BIBLIOGRAFIA:



 
 
 

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