MIRIAM MAKEBA
- despadronizeiteen

- 4 de ago. de 2020
- 7 min de leitura
Mama África

Zenzile Miriam Makeba nasceu em 04/03/1932, em Joanesburgo, na África do Sul. Seu dia é comemorado na cidade de Berkeley em 16 de junho, mas você vai entender o motivo e a importância dessa rainha no decorrer do texto...
Bom, na época de seu nascimento estávamos no meio de uma crise econômica, e Miriam, uma recém-nascida preta, vivia em uma parte segregada de Joanesburgo. Sua mãe era Suázi e seu pai Xhosa.
Quando ela tinha cerca de 18 dias de vida, sua mãe, que praticava fitoterapia, foi presa por fazer cerveja de forma ilegal (foi a forma que ela encontrou para pagar as contas e colocar comida na mesa), e a pequena Miriam teve que ir junto. Mais tarde, ela passou a viver com o pai, que trabalhava na Shell. Quando tinha 5 anos, seu pai faleceu e ela teve que ir morar com a avó, em Riverside, Pretoria — capital da África do Sul — (já imaginou que legal seria uma série chamada Riverside, que contasse sobre a adolescência da Miriam e de outras pessoas da região na época, no estilo de Riverdale?).
Ainda jovem, Makeba já cantava no coral da igreja e seu primeiro solo foi com apenas com 15 anos, em 1947, no evento para a ocasião da visita da família real inglesa à África do Sul (mas vale lembrar que o país já era independente, apesar de ter sido obrigado a manter as leis de segregação racial impostas pelos ex-colonizadores, só que ainda tinha como piorar).
Um ano depois o Apartheid estaria começando, com leis que limitavam a liberdade da maioria negra, e favoreciam a minoria branca do país. Começaram a proibir coisas e com o passar dos anos a lista só aumentaria. De casamento inter-racial a frequentar a universidade; não-brancos não podiam viver e muitas vezes tampouco estar no mesmo espaço público que brancos. A mão de obra mal remunerada, trabalhos braçais e pesados eram as vagas de emprego reservadas aos negros.
Miriam começa a trabalhar como empregada doméstica junto de sua mãe e em 1950 ela dá a luz a sua filha, Bongi, e se muda para Sophiatown, um dos pouquíssimos locais onde a segregação não era obrigatória; mas um tempo depois, ela já estava nos palcos, cantando em bandas. A primeiro momento foi na Cuban Brothers, que era a banda de seu primo, e mais tarde na Manhattan Brothers, em 1954, banda com a qual ela participou de tours pela África do Sul, Zimbábue e Congo, até o ano de 1957. Ela também participou do grupo feminino Skylarks, com os ritmos do grupo sendo fruto de um mix entre jazz e músicas tradicionais africanas (se você não consegue nem imaginar como isso fica, pesquisa por “Skylarks” no youtube e veja como é maravilhoso, eu pelo menos amo o jazz, e com as melodias africanas fica mais suave e animado, além de muito bonito).

Você por acaso já viu os filmes “De volta à África” e algum filme do King Kong? O que eles têm a ver? Bom, os dois filmes (um documentário e uma adaptação musical de um livro homônimo, respectivamente) são dos anos 50 e têm Miriam Makeba como uma das brilhantes estrelas.
“De Volta à África” (1957), foi um documentário, filmado clandestinamente, de Lionel Togosin, com as pessoas nativas, sem atores profissionais e que só aconteceu por que o estadunidense, Lionel, fingiu que era um documentário sobre a música local e não denunciando os horrores do Apartheid. Quando o filme foi lançado, em 1959, no Festival de Filmes de Veneza, ela teve a oportunidade de receber o prêmio por seu papel, mas, por ser um filme gravado de forma ilegal e denunciando as medidas governamentais da época, ela ficou em maus lençóis e seu passaporte foi recusado ao tentar entrar de volta em seu país natal. Após ficar um tempo na Inglaterra, conseguiu ir pros EUA e se exilou em Nova Iorque.
Antes de ter sido exilada, ela participou de “King Kong”, um espetáculo de teatro-musical (ou, como foi chamado, “ópera-jazz”), que manteve as críticas de forma mais velada, já que o foco era contar a história do boxeador conhecido como King Kong (não, não é a história do macaco gigante, e sim uma história trágica e com um pano de fundo de crítica social, já que se estivesse escancarado o governo poderia censurar), este trabalho é o principal responsável pela carreira internacional da futura “Mama África”, afinal, após o grande sucesso na África do Sul, em 1961 a peça foi apresentada em Londres (pelo mesmo elenco africano e 100% negro), no famosíssimo teatro West-End (pelo menos é famoso para quem é muito fã de teatro musical, tipo eu).
Voltando aos Estados Unidos, Makeba foi a primeira cantora a ser expulsa da África do Sul durante o Apartheid, mas estava muito longe de ser a última. Ela foi reprimida pelo governo várias vezes, seja quando tentou voltar para o funeral da mãe (1960) e teve o passaporte negado, quando testemunhou contra o apartheid e teve sua cidadania retirada, ou mesmo quando ganhou o Grammy por “An Evening with Harry Belafonte” (1959) – H. Belafonte a ajudou a migrar para os EUA – e suas músicas foram proibidas em seu país natal.
Em contrapartida, aqui nas Américas ela logo conquistou muito sucesso, colecionando influentes fãs, como o presidente J.F. Kennedy, Marlon Brando, Bette Davis, etc. Já deu para perceber que ela estava bem famosa, mas acho que você pode estar deixando um pequeno detalhe passar, talvez por erro meu, mas, enfim: as músicas de Miriam eram, acima de qualquer influência do jazz, africanas típicas, principalmente dos grupos Zulu e Xhosa/Cosa. Ela estava levando a cultura africana pro mundo, tanto nas músicas quanto em seu estilo (o chamado “Afro Look”), e ajudando pessoas negras a se aceitarem como são, abraçarem suas raízes (coincidentemente parecido com o recente lançamento da Queen B, “Black is King”)!
Em 1964 ela casou com Hugh Masekela (que atuou com a mesma em “King Kong”) e 4 anos depois, em 1968, ela casou com Stokely Carmichael, que foi um ativista dos Panteras Negras (partido dos EUA que exigia igualdade racial, principalmente criticando a violência policial e governamental contra os afro-americanos — lembra alguma coisa, não lembra? Uma certa série de protestos de 2020, talvez...).

Só que o COINTELPRO estava em vigor desde 1956, ministrado por J. Edgar Hoover. O programa agia não só contra os Panteras Negras, mas também contra ativistas e agia por meio de atividades ilegais para desestabilizar e deslegitimar o partido. Em meio a tais dificuldades e divergências de pensamentos dentro dos Panteras, Miriam e Stokely se mudam para Guiné, na África Ocidental.
Miriam segue em sua carreira, fazendo turnês pela Europa América do Sul e África, participando de momentos históricos incríveis, como a independência de Moçambique (escute “A Luta Continua”, música maravilhosa). Nos anos 80 ela se muda para a Bélgica, enquanto enfrenta tempos difíceis, pois se separa do marido e sua filha morre após complicações no parto (Bongi, também uma cantora, morre em 1935, com 34 anos). Quase que ao mesmo tempo ela também estava lutando contra o álcool e o câncer do colo do útero. Apesar disso, ela segue tentando denunciar as injustiças do governo de vários países, em especial da África do Sul, chegando a ganhar prêmios por sua ação pacificadora (Prêmio da Paz Dag Hammerskjold).
Mama Africa, apesar de um tempo não conseguindo trabalhos muito importantes, se une a Paul Simon na turnê “Graceland”, apresentando-se em Zimbábue e... bom, depois disso ela volta com tudo! Chegou a se apresentar até para o papa!! E aí, finalmente, após tantos anos de luta, chegamos nos anos 90. Logo em 1990, com o fim do apartheid, Nelson Mandela é liberto (27 anos após sua prisão, em 1964) e a encoraja a voltar para sua terra natal.
No começo foi um pouco difícil para ela, poucos queriam colaborar e talvez o fato de ela ter ficado 31 anos como exilada política tenha influenciado nisso, mas logo ela já estava arrasando novamente. Publicou o álbum “Homecoming” (voltando pra casa, sacou??), participou dos documentários “Mama” (de Veronica Patte Doumbe) e “Amandla” (de 2002, contando a história da música e a luta contra o apartheid, dirigido por LeeHirsch), fez turnês, recebeu honrarias de universidades, a maior condecoração existente na Tunisia e até o Prêmio Presidencial (conferido por Mandela).
Ela nunca deixou de ser uma ativista e realizar ações humanitárias (apesar de não se afirmar como cantora política, apenas dizer que cantava sobre o que sentia e vivia). Ela abriu centros para reabilitação de garotas que tenham sofrido abuso, usuários de drogas, portadores do HIV, além de ter estado por vezes, ao longo do período entre 1990 e 2008, no papel de Embaixadora da Boa Vontade Sul Africana.
No ano de 2008 ela se apresentou na Itália por cerca de 30 minutos e, após isso, teve um ataque cardíaco, para o qual perdeu a vida.
Eu conheci a Miriam Makeba neste ano, nunca tinha ouvindo nenhuma música dela e me pergunto o porquê disso. Depois que eu descobri, até baixei o Spotify (e viciei no app) para ouvir suas músicas a todo instante, ela foi inclusive a primeira artista que eu passei a seguir (o link das minhas músicas favoritas dela estarão na bibliografia e de seu perfil no Spotify também). Além disso, acho incrível como ela usou a música, mesmo que sem a intenção, para denunciar o que ela e seu povo sofriam, dando assim voz e espaço para a discussão, em um âmbito mundial!! Ademais, ainda falta acrescentar o quanto eu aprendi com essa pesquisa! Desde informações que eu completamente desconhecia sobre o Apartheid (o quão recente é), até como as questões raciais continuam com problemas tão similares aos daquela época.
Escrito por: Olívia Amann.
BIBLIOGRAFIA:
Música “Pata Pata” - https://youtu.be/lNeP3hrm__k
Música “A Luta Continua” - https://youtu.be/Mtl62-6pY_I
Aqui está um artista que eu gostaria de compartilhar com você… Miriam Makeba
https://open.spotify.com/artist/18RkLKfeoUgZflWv9os25W?si=gBqq0a_bQ76fpDOJnabvuA
Imagens –
1: FURLAGAWO, Rosetta, pelo Portal Medium: https://medium.com/@rosettafourlagawo/they-are-always-knocking-at-your-door-the-past-the-future-p-246-makeba-my-story-2023cb0b5dab
2: By Rob Mieremet / Anefo - http://proxy.handle.net/10648/ab897188-d0b4-102d-bcf8-003048976d84, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=67108492
ANDRADE, Ana Luíza Mello Santigo de. Apartheid. Publicado em: 10/02/2017. Disponível em: https://www.geledes.org.br/apartheid/. Acesso em: 03/08/2020.
BLACK, Dhigo. BLACK PANTHERS. 2019. (20m26s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UECG_OvkN_I.
CABRAL, Danilo Cezar. O que foi o Apartheid, na África do Sul. Publicado em: 14/02/2020. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-o-apartheid-na-africa-do-sul/. Acesso em: 03/08/2020.
CARVALL, Fernando; MONTELEONE, Joana; SEREZA, Haroldo Ceravolo. Zenzile Miriam Makeba: a música contra o apartheid. Publicado em 16/07/2020. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/super-revolucionarios/65215/zenzile-miriam-makeba-a-musica-contra-o-apartheid. Acesso em: 03/08/2020.
KAUFMAN, Michael T. Stokely Carmichael, Rights Leader Who Coined 'Black Power,' Dies at 57. Publicado em: 1998. Disponível em: https://www.nytimes.com/1998/11/16/us/stokely-carmichael-rights-leader-who-coined-black-power-dies-at-57.html.
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Portal Wikipédia. King Kong (1959 musical). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/King_Kong_(1959_musical). Acesso em: 04/08/2020.
Portal South Africa History online. Miriam Makeba. Disponível em: https://www.sahistory.org.za/people/miriam-makeba. Acesso em: 04/08/2020.




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