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TEREZA DE BENGUELA

  • Foto do escritor: despadronizeiteen
    despadronizeiteen
  • 11 de ago. de 2020
  • 7 min de leitura

A Rainha do Quariterê

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A incrível mulher que te apresento hoje é uma rainha brasileira... quer dizer, não sabemos se ela é mesmo brasileira ou angolana, mas o que importa é que seu reinado foi aqui no Brasil, no Quilombo do Quariterê (também conhecido como Quilombo do Piolho). Tereza também tem um dia dedicado a ela, é o mesmo que o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha: 25 de julho. Como diria Nairóbi, de “La casa de papel”: “Que comece o Matriarcado”.


Como não sabemos onde ou quando a Tereza de Benguela nasceu só podemos estimar. Como Benguela é uma cidade litorânea de Angola, acredita-se que ela nasceu lá e o ano deve ter sido por volta de 1700 (com uma grande margem de erro), já que o Quilombo que ela comandava teve origem em 1730 e ela viveu até a década de 1770. Essa falta de informação reflete uma sociedade que passou anos apagando os registros culturais da história negra e indígena, principalmente.


Se você está historicamente perdido, vou explicar algumas coisinhas sobre o período de 1700 a 1770: estamos no meio do período colonial e escravocrata no Brasil. Até 1750, o rei de Portugal era João V, mas após sua morte quem assume é seu filho, D. José I. Novas minas de ouro estavam sendo descobertas na região próxima a Goiás e Mato Grosso, o que intensificou a mineração na região, mas também a fiscalização portuguesa, já que era proibido minerar sem supervisão da coroa.


Geograficamente falando, o Quilombo do Quariterê se localizava no Mato Grosso, bem pertinho da Bolívia. O local era chamado de Vale do Guaporé, na então capital da capitania do Mato Grosso, Vila Bela do Mato (hoje é Vila Bela da Santíssima Trindade, inclusive é um local belíssimo).


(Plano da capital de Vila Bela do Mato Grosso)
(Plano da capital de Vila Bela do Mato Grosso)

Tereza, segundo alguns documentos, era escrava de um capitão chamado Timóteo Pereira Gomes e esposa de José Piolho. Ela e seu marido fugiram e se instalaram em um local de mata fechada, às margens do Rio Guaporé (por isso Vale do Guaporé). Junto deles foram indígenas fugidos do trabalho forçado e outros escravos fugidos das minas e de fazendas próximas. Portanto, abrigavam também os ditos cafuzos (filhos da miscigenação entre pretos e indígenas).


Existem duas teorias quanto ao início do Quilombo. A primeira diz que Tereza desde sempre foi a rainha dele, o que pode ser sustentado pelo sufixo do nome do Quilombo: Terê. Porém, a teoria mais aceita é a que José Piolho era o rei quilombola de 1730 (fundação) até sua morte, em 1750, e essa teoria é sustentada pelo fato de que Quariterê pode ter derivado da palavra “Guariteré”, que é “piolho” em tupi-guarani.


Outro fato que ajuda a sustentar a segunda teoria seria a mudança política pela qual o quilombo teria passado. No começo ele era como todos os outros, viviam de subsistência, faziam pequenas trocas com comunidades próximas e a defesa era baseada na capoeira, sem uso de armas. Já com Tereza no comando era tudo diferente: tinha um parlamento, estratégia militar, venda e troca de excedentes etc.


Vou explicar mais sobre a política no Quilombo, mas antes quero deixar claro como é confusa a disponibilidade de informação, já que não temos documentos sobre isso. Estudar a história afro-brasileira é mesmo um desafio. Gosto de pesquisar em mais de um site ou livro, mas quando eu decidia ver um outro local, descobria que a referência era a mesma que eu tinha acabado de consultar. Como é possível uma mulher a quem temos um dia dedicado e que não conseguimos conhecer a história completa?


Bom, um dos poucos documentos em que se diz algo sobre Tereza e o Quilombo que governava é o Anal de Vila Bela de 1770, mas eu mesma não consegui encontra-lo, nem para baixar, nem para comprar (na verdade encontrei o de 1734, na Biblioteca Nacional de Portugal, mas o de 1770 não). Neste Anal é explicado diversas questões quanto a política e a destruição do Quilombo, mas o trecho, encontrado em sites e arquivos governamentais, que me chamou mais atenção foi:


“Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entrava os deputados, sendo o de maior autoridade, tipo por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais [...]”.

Só eu reparei ou vocês também repararam? Sim! Descreve José Piolho como um dos deputados! Mas como se ela só assume o poder depois de ele ser morto pelos soldados do governo? Seria outro José Piolho?


Ok, acho que já falei das minhas teorias da conspiração o suficiente, vamos ver então como funcionava esse governo parlamentarista:



O GOVERNO

Como pode-se entender pelo trecho lido no Anal de Vila Bela, semanalmente os conselheiros do Quariterê se uniam e tinham uma reunião para decidir as ações que iriam tomar, com a rainha mediando a reunião. Em contrapartida, a fidelidade ao Quilombo era essencial e caso contrário poderia ser punido com a tortura ou morte. Alguns dos métodos conhecidos eram o enforcamento, enterrar vivo ou quebrar as pernas.


Apesar da crueldade, a medida é compreensível, afinal, a menor informação vazada já poderia denunciar para as autoridades o local do Quilombo ou as estratégias de combate, o que colocaria em risco a vida das cerca de 200 pessoas que viviam lá.


As medidas governamentais também levaram o Quilombo do Piolho a prosperar, tanto que contrastava com as cidades da capitania do Mato Grosso, que mesmo em meio a uma corrida do ouro, não tinham a abundância que lá tinha. Segundo o site “Aventuras na História”, o pesquisador Edir Pina afirma que tal prosperidade só foi possível graças à disponibilidade de solo e mão de obra, mas principalmente devido à cooperatividade e solidariedade.



SUBSISTÊNCIA, EXCEDENTES E COMÉRCIO

O Quilombo não era isolado do resto do mundo, como se possa pensar, na verdade os quilombolas vendiam, trocavam e compravam coisas da população de cidade pequenas, próximas ao Vale do Guaporé.


No Quariterê era produzido, principalmente, milho, feijão, mandioca, banana, fumo e algodão. Curiosamente, as armas e ferramentas de tortura e aprisionamento dos escravos, quando chegavam no Quilombo do Piolho, se tornavam ferramentas para a agricultura ou para a forja, já que lá até ferreiro tinha!


Além da produção ser usada para o consumo próprio, os excedentes (que é o que sobrava) era vendido, ou trocado, normalmente por armas ou pedras preciosas. Só o algodão, que antes de ser vendido ou usado, era processado em tecido, para então vender ou virar roupa dos quilombolas.



ESTRATÉGIA MILITAR

Tereza de Benguela também revolucionou as estratégias de resistência daquela comunidade! Ela já imaginava que não seria possível lutar contra os soldados portugueses se eles chegassem com armas de fogo e os quilombolas só tivessem a força física. Por isso ela começou a comprar as armas, mas também liderou pequenos ataques, que tinham como objetivo roubar as armas dos soldados e das cidades. Além disso, eram usados também os conhecimentos e as armas dos indígenas que habitavam no quilombo.



ATAQUE, MORTE E RESISTÊNCIA

20 anos depois de Tereza se tornar rainha, os portugueses chegam à resistência. O governo já desconfiava ter encontrado o local onde o quilombo poderia estar, já que conforme foi aumentando a demanda por mão de obra nas minas do Mato Grosso, foi também aumentando a quantidade de escravos que iam para lá e, portanto, a quantidade de escravos fugidos também. Eles precisavam estar indo para algum lugar...


Luís Pinto de Sousa Coutinho chegou no Quariterê em 1770, com suas armas de fogo. Muitos quilombolas conseguiram fugir, mas alguns ficaram para lutar, tanto com suas armas compradas e roubadas, quanto com os arcos e flechas indígenas. 9 quilombolas morreram, enquanto 79 pretos e 30 nativos foram capturados e levados para a cidade, onde passaram por diversas humilhações, foram marcados a ferro (igual fazem com os bois) com a letra “F”, o que significava “fujão” e depois foram devolvidos a seus “donos”.


Tereza de Benguela foi presa e não se sabe ao certo como morreu, apesar de dizerem que ela enlouqueceu e se matou, enquanto outros dizem que foram os soldados que a mataram. Há ainda quem sugira que tenha morrida de tristeza. A única coisa que sabemos é que, segundo o Anal de Vila Bela de 1770, ela não disse nada depois de sua captura, e após sua morte, degolaram-na e colocaram sua cabeça no meio do quilombo.


Apesar de derrotados, alguns dos que fugiram ainda voltaram e reconstruíram o Quariterê, que foi, infelizmente, destruído de vez em 1795.



A RAINHA GANHA RECONHECIMENTO

(Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha - 26/07/2018 - São Paulo (SP))
(Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha - São Paulo)

A nossa rainha já foi samba enredo e tema de apresentação de escola de samba, mas acredito que o maior reconhecimento esteja nas linhas abaixo. Em um Projeto de Lei do Senado, de 2009, pensado pela senadora S. SLHESSARENKO, está escrito:


“A mulher luta há anos por reconhecimento e por valorização na sociedade. [...] A situação da mulher negra no Brasil de hoje manifesta um prolongamento da realidade vivida na escravidão com poucas mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social. [...] Por tudo isso é que a instituição de um dia nacional da mulher negra é valorizar sua existência, é reforçar sua importância para a sociedade, é tornar visível suas demandas, sua situação.
[...] No dia 25 de julho é celebrado anualmente o Dia Internacional de Luta da Mulher Negra da América Latina e do Caribe, entretanto o Brasil não tem uma data oficial de celebração da mulher negra, sendo importante termos em nosso calendário oficial de datas comemorativas um dia para homenagear a existência da mulher negra.
No entanto, é preciso criar um símbolo para a mulher negra, tal como existe o mito ZUMBI dos Palmares, as mulheres carecem de heroínas negras que reforcem o orgulho de sua raça e de sua história, de mulheres que sirvam de espelho para as batalhas cotidianas de cada mulher negra. Desta forma apresento, como forma de resgatar a memória de uma heroína negra negligenciada pela história, a homenagem à Tereza de Benguela [...]”.

E assim foi instituído o dia 25 de julho como dia de Tereza de Benguela.


Escrito por: Olívia Amann.



BIBLIOGRAFIA:


 
 
 

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