MULHERES NA REVOLUÇÃO FRANCESA
- despadronizeiteen

- 25 de jul. de 2020
- 5 min de leitura
“Os homens tomaram a Bastilha, as mulheres tomaram o Rei”

Se você já teve curiosidade em pesquisar sobre os acontecimentos que mais marcaram o mundo ou aqueles que mudaram o rumo da história, certamente se deparou com algo relacionado à Revolução Francesa. Isso porque essa revolução foi, de fato, um dos principais momentos da trajetória mundial, um marco na história da democracia. Mas, para aqueles que nunca ouviram falar dela e não fazem ideia do que ela foi e representou, aqui vai uma breve explicação, para que você não fique perdido antes de focarmos inteiramente no papel que as mulheres desempenharam nela.
A Revolução Francesa foi um movimento impulsionado pela burguesia contra o Antigo Regime e o absolutismo monárquico, e o que conduziu as pessoas até ela foi o cenário catastrófico em que a França encontrava-se, tanto no âmbito político, quanto no econômico e social.
A sociedade da época era dividida em primeiro estado (clero), segundo estado (nobreza) e terceiro estado (trabalhadores, camponeses e burguesia) – que, sozinho, totalizava cerca de 97% da população. E nesse contexto, devido ao endividamento francês por conta das guerras externas e à crise de abastecimento do campo, as pessoas passavam fome enquanto a nobreza e o clero continuavam a usufruir do luxo pago com os impostos exorbitantes que eram cobrados delas. Isso gerou uma insatisfação gigante, e o povo começou a reivindicar seus direitos e uma maior participação na política.
Assim, foram convocadas assembleias – sim, no plural, uma só não deu conta - com representantes de todos os estados para tentarem resolver a situação, mas o terceiro estado estava em desvantagem (porque o voto era por estado, então o primeiro e o segundo estavam sempre unidos, uma vez que possuíam interesses semelhantes) e o rei não queria ceder às reivindicações. Desse modo, a burguesia, que liderava o terceiro estado, propôs uma Assembleia Nacional Constituinte para formular uma constituição para a França, mas não obteve resposta por parte do rei, da nobreza ou do clero. Por isso, em 17 de junho, os membros do terceiro estado se declararam em reunião para formulação de uma constituição, mesmo sem a resposta dos outros estados (problema deles, né?).
Toda essa situação só acabou por aumentar a insatisfação popular e, num levante, a população tomou a Bastilha, uma cadeia de presos políticos que era uma grande marca do regime absolutista francês, o que configura esse como um grande feito. Além disso, mais tarde, a Assembleia Nacional instituiu uma série de decretos e a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, que reivindicava, sobretudo, a igualdade de todos e os direitos do homem à liberdade, a propriedade a segurança e a resistência à opressão. Assim foi o início desse movimento de massas que durou 10 anos, e é a partir desse momento e nesse ponto da Revolução que entram as mulheres.
“Os homens tomaram a Bastilha, as mulheres tomaram o Rei”, assim disse o historiador francês Jules Michelet. Mas o que ele quis dizer com isso?
(Eu, pessoalmente, amo essa frase. Ela tem um quê tão dramático e representativo...)
Bom, depois da Queda da Bastilha e de todos os decretos emitidos pela Assembleia Constituinte, a corte e os deputados reuniram-se em Versalhes para discutir as mudanças na política francesa. Os decretos e a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão conquistaram algumas coisas, mas quando chegou a hora de discutir uma constituição permanente em setembro, os conservadores tentaram reverter a situação e, isolados em Versalhes, impuseram o veto legislativo do rei – assim, se Luís XVI não gostasse de uma nova lei, poderia vetá-la – o que foi BEM ruim. Por isso era necessário trazer o rei, a corte e os deputados para Paris, o centro da revolução, e quem conseguiu força-los a isso foram as mulheres.
Em Paris, as mulheres estavam infelizes com o preço e escassez do pão e protestavam nos mercados da capital. Numa manifestação no mercado de Fauborg Saint-Antoine, um grupo delas fez com que uma igreja próxima badalasse seus sinos, fazendo outras juntarem-se a elas. Logo já era um grupo de milhares de mulheres armadas com armas improvisadas que concentraram-se em frente ao Hôtel de Ville e receberam apoio dos revolucionários. Então, elas marcharam.
Foi assim que, em 5 de outubro de 1789, cerca de 7 mil mulheres, encabeçadas pelas vendedoras de peixe de Paris, com soldados da Guarda Nacional e outros homens atrás, seguiram para Versalhes com a intenção de gritar na cara do rei todos os seus protestos e exigir que ele tomasse suas providências. Quando, enfim, chegaram na frente dos portões do palácio, a multidão em polvorosa protestava firmemente e invadia os pátios, até que o rei aceitou ver algumas representantes, que falou para ele sobre a necessidade de pão para o povo de Paris. O rei, então, disse que elas poderiam levar o quanto conseguissem dos estoques do castelo e, com a promessa de distribuição de alimentos, as pessoas se acalmaram.
No entaaanto, no dia seguinte, a população, insatisfeita com a conduta de Luís XVI, que vetava os decretos revolucionários da Assembleia um atrás do outro, e com receio de que a corte e a rainha Maria Antonieta o convencessem a mudar de ideia sobre o que havia dito, invadiram o palácio e exigiram, entoando o grito “a Paris! a Paris!”, que o rei e sua família deixassem Versalhes e voltassem com eles para Paris. Assim, foi realizada a marcha de retorno, que já contava com um montante de gente ainda maior (falam de números como 60.000 pessoas), com a família real numa carruagem pela estrada Versalhes–Paris, vigiados por mulheres à frente, homens e soldados da Guarda Nacional atrás. Uma semana depois, a Assembleia Nacional também deixou Versalhes e se estabeleceu em Paris, que voltou a ser o centro político do país.
As mulheres tomaram o Rei, realmente.
“Foi uma iniciativa política sofisticada, porque, com a concentração do poder em Versalhes, o rei ficava longe da pressão popular e mais exposto às influências da rainha e da corte, e se utilizava do direito de veto, que ainda possuía no início da Revolução, para impedir que as reformas fossem realizadas. Ao trazerem Luís XVI para Paris, as mulheres mudaram o centro de gravidade do processo revolucionário e propiciaram à população da capital um novo protagonismo”, disse Tania Machado Morin, autora do livro Virtuosas e perigosas: as mulheres na Revolução Francesa.
Apesar de passarem ainda muito tempo nas sombras e na luta pelos direitos femininos nos anos e séculos que se seguem, é completamente inegável o papel fundamental que as mulheres exerceram nesse momento. Munidas de facas de cozinha, elas marcharam e tomaram o rei. E, desse jeito, inegavelmente, elas mudaram completamente o curso da Revolução Francesa.
Escrito por: Lara Guimarães.
BIBLIOGRAFIA:
https://www.thoughtco.com/women-and-the-french-revolution-3529110 (Acesso: 23/07/2020)
http://www.adufal.org.br/conteudo/11102 (Acesso: 23/07/2020)
http://fernandapompeu.com.br/francesas-desbocadas-e-da-rua/ (Acesso: 23/07/2020)
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/feminismo-movimento-surgiu-na-revolucao-francesa.htm (Acesso: 24/07/2020)
https://revolution.chnm.org/exhibits/show/liberty--equality--fraternity/item/387 (Acesso: 24/07/2020)
https://www.youtube.com/watch?v=eg47cCMcQr0 (Acesso: 24/07/2020)
https://www.todamateria.com.br/revolucao-francesa/ (Acesso: 25/07/2020)
https://rainhastragicas.com/2017/10/05/o-dia-em-que-as-mulheres-marcharam-contra-os-soberanos-em-versalhes/ (Acesso: 25/07/2020)
https://www.historiadomundo.com.br/idade-moderna/revolucao-francesa.htm (Acesso: 25/07/2020)
https://www.marxismo.org.br/5-de-outubro-a-marcha-das-mulheres-a-versalhes/ (Acesso: 25/07/2020)





Comentários